MORTE COM PÃES

Comprou pães e morreu. Simples assim. Nada com a pompa de uma ópera.

Entrou na padaria, escolheu pães mais clarinhos, chegou a ter na língua seu sabor milenar, depois voltou à calçada, sentiu uma dor do lado e morreu amparado por um desconhecido.

Aquele senhor disse que ainda era bem jovem, aquela moça suspirou que era um homem bonito.

No fim a rua apagou a imagem: o óbito foi esquecido pela dureza do asfalto, alguém levou a sacola com pãezinhos.

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CEGUEIRA (SEM ENSAIO)

Um caminhão passa na rua, as paredes trepidam — ela ouviu um especialista dizer que isso são minúsculos terremotos.

Farei uma blusa bordada de fuxicos — ela pensa no sofá onde costura: se o mundo está para acabar, vestirei branco com detalhes em azul.

E sorri, um pouco mais despreocupada.

A questão agora é saber o que preparar para o primeiro almoço, quando as amigas vierem, alvoroçadas como sempre, depois do fim do mundo.

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CULINÁRIA CARTOGRÁFICA

Tem fome de mapas o rapaz da banca de jornais — ele deixou escapar na conversa frugal de domingo.

Se eu pudesse, ele disse, comeria viagens — gastrônomo das mais finas geografias.

Ao virar a esquina, a língua do interlocutor guardava o gosto de transatlânticos temperos.

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ANOITECIDO

Não é ele que fecha a janela às 6 da tarde: é o dia que o anoitece.

Pelas frestas das persianas entram na sala os curtos-circuitos do poente.

As dúvidas da manhã ainda orbitam seu corpo: cada uma delas uma galáxia procurando universos em volta da poltrona.

Enquanto isso, por distração, zapeia a tevê sem culpa, como quem espera tropeçar em respostas.

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CELULAR NO TÁXI

A conversa sobre o mundo e sobre nada: coisas como mísseis na cidade árabe ou uma lâmpada por comprar.

Instruções sobre um novo molho dadas a mais uma cozinheira, a festinha de um filho na escola mesmo, a tentação da roupa naquele shopping.

Frases inseridas no celular como moedas em antigos telefones públicos: para dar continuidade à fala: fragmentos de ocorrências banais numa crônica urbana.

No final a pressa de sair: o aparelho esquecido sobre o banco: a urgência de bloquear e ir atrás de um chip.

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LIVROS DA ESTANTE

Como quem inaugura lápides, encontrou a poesia de Pound entre os ossos do frango (já de dois dias) comido frio no desjejum.

Alimentou-se da primeira, embora tenha vomitado o segundo no chão da copa.

A planta dos pés enraizada no piso de repente imaginou caminhos impossíveis.

Estava suspenso pela poesia, ente que não conhece a imobilidade. Um livro, depois outro. Um poeta, depois outro.

Plena manhã, e ele engravidando cemitérios.

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ALI, DO OBSERVATÓRIO

Ela poderia se perder no corredor da própria casa, poderia mesmo nunca mais voltar.

Partiu em circunavegação dentro de si, buscando devorar horizontes onde nada do presente era construção.

Ele nada mais fez que fotografar seu perfil contra a nuvem do travesseiro.

Deixou que se ferisse sobre os copos quebrados, não removidos na véspera do afogamento.

Ela incorporou um peixe nascido sem nadadeiras.

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